O mercado global de cacau atravessa um período de elevada volatilidade. Um impasse comercial na Costa do Marfim — maior produtor mundial — atrasou a comercialização da safra intermediária, ampliando a pressão sobre os preços internacionais, a logística de exportação e o fluxo de caixa de cooperativas e traders. A combinação entre recuo recente das cotações, disputa por prêmios de venda e maior cautela dos compradores desenha um cenário de curto prazo mais restritivo para toda a cadeia.
O que está travando as vendas da safra intermediária?
A safra intermediária representa uma parcela relevante do abastecimento anual do país e é fundamental para o processamento local e para o equilíbrio das exportações. O entrave atual ocorre porque compradores pressionam por prêmios menores diante da correção dos preços futuros, enquanto o regulador busca manter níveis de remuneração que preservem a renda do produtor.
No centro das negociações está o papel do Conselho do Café e do Cacau, que atua para estabilizar a renda no campo e evitar a transferência abrupta de perdas ao elo mais frágil da cadeia. A divergência de expectativas postergou contratos, reduziu a liquidez imediata e aumentou o volume de grãos estocados.
Efeitos imediatos no mercado físico
- Acúmulo de estoques: atrasos na contratação elevam a permanência do cacau em armazéns, pressionando custos logísticos e de financiamento.
- Risco de descasamento contratual: exportadores com posições pré-fixadas enfrentam margens comprimidas.
- Ajustes no ritmo de moagem: indústrias tendem a revisar compras spot e cronogramas de processamento diante da incerteza de preços.
Pressão sobre preços e volatilidade nas bolsas
O recuo recente dos futuros de cacau, negociados em praças de referência como ICE Futures Europe, ampliou a cautela dos compradores. Com a percepção de que a oferta pode encontrar gargalos de comercialização no curto prazo, o mercado reage com maior volatilidade e reprecificação de prêmios, afetando a formação de preço ao longo de toda a cadeia.
Impactos para produtores, exportadores e indústria
Produtores:
- Incerteza de escoamento pressiona o fluxo de caixa no pico da colheita.
- Dependência de políticas de sustentação para mitigar choques de renda.
Exportadores e traders:
- Margens mais estreitas e maior risco de base (diferença entre físico e futuro).
- Necessidade de renegociar prazos, prêmios e logística.
Indústria de chocolate:
- Gestão mais ativa de hedge e compras escalonadas.
- Reavaliação de custos de matéria-prima em contratos de médio prazo.
Cenários para os próximos meses
Cenário de normalização: acordo sobre prêmios destrava vendas, libera estoques e estabiliza o fluxo exportador, reduzindo a pressão de curto prazo.
Cenário de prolongamento do impasse: manutenção do atraso eleva custos de armazenagem, mantém volatilidade e pode gerar correções adicionais nos preços internacionais.
Cenário de intervenção coordenada: medidas de financiamento e compras estruturadas aliviam o produtor e recompõem a liquidez do mercado físico.
O que muda para o Brasil e a América Latina?
Com o mercado global mais sensível a choques de oferta e negociação, países produtores e processadores da América Latina tendem a enfrentar maior competição por contratos, ajustes em prêmios regionais e oportunidades pontuais para originação alternativa. Para o Brasil, o momento exige gestão de risco de preços, fortalecimento de contratos de fornecimento e atenção à logística de exportação.
Conclusão
O impasse na Costa do Marfim expõe uma fragilidade recorrente da cadeia do cacau: quando o preço corrige rapidamente, o ajuste de prêmios e contratos não acontece no mesmo ritmo. Sem mecanismos de amortecimento eficientes, a pressão recai sobre o produtor e contamina o mercado físico, elevando a volatilidade. A saída passa por coordenação regulatória, financiamento de curto prazo e disciplinas de hedge mais robustas ao longo da cadeia.

